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Venha ela, que já faz falta

No Hemisfério Norte, a Primavera começa todos os anos no Equinócio de Verão, em Março, exactamente a meio entre o Solstício de Inverno (+/- 21 Dezembro) e o Solstício de Verão (+/- 21 Junho), e que corresponde também a um dos 2 momentos do ano em que o eixo da Terra está num plano perpendicular à incidência dos raios de sol, que nesses 2 dias do ano caem exactamente na vertical sobre o Equador. Como consequência destes momentos únicos, há 2 dias no ano em que o número de horas de luz é o mais aproximado possível ao número de horas de escuridão. Não se esqueçam que a Terra gira de 3 maneiras diferentes (receber esta informação aassim de repente pode causar tonturas eheh): enquanto a Terra dá 1 volta completa sobre si própria todas as 24 horas, o eixo da Terra também gira, desenhando um círculo no espaço acima da Terra. Para ajudar à confusão, a Terra também gira à volta do Sol, levando 1 ano solar (365.25 dias) a completar essa volta. Por causa desta volta e da inclinação do eixo é que temos estações do ano, e também por isso é que é Verão no Brasil quando estamos ensopados e a congelar em Portugal, e vice-versa.

Este ano a Primavera chega a Porugal continental e à Madeira exactamente às 17:32 do dia 20 de Março (16:32 nos Açores).
Uma explicação mais técnica pode ser encontrada no site do United Kingdom's National Maritime Museum [link], incluindo a razão pela qual temos que acrescentar um dia aos anos de 4 em 4 anos e temos anos bissextos.
Por mim, estou tão contente por a Primavera estar a chegar que comecei por procurar a hora exacta do Equinócio de Verão na net e acabei a escrever um artigo para o blog. E acho que não sou só eu que estou ansiosa pela Primavera....:)...ler tudo>>

Quem chama é quem é. Mai nada.

Há anos que assisto à batalha entre o pessoal das ciências sociais e humanas. A primeira vez que dei por ela foi no 12º ano, quando estava a frequentar o então chamado Agrupamento de Ciêntífico-Natural e a minha turma em bloco resolveu que Filosofia era uma disciplina para passar com 10, e Psicologia até se aproveitava mas apenas porque se aprendia o mapa fisiológico do cérebro.

Com o tempo a coisa foi piorando. Não há maior concentração de ateus raivosos, psiquiátrico-fóbicos e orgulhosos seguidores do síndroma de quem foi massacrado com religião quando era novo e ainda não o ultrapassou perdão, pensamento de Dawkings do que nas turmas dos cursos de ciências naturais e exactas em todas as universidades. (Auto-intitulam-se humanistas e espalham cartazes fotocopiados à borla na associação de estudantes a marcar reuniões para dizer mal de tudo o que não seja passível de ser escrito por uma fórmula matemática)

Bom, hoje em dia a separação que existe entre ciências naturais/exactas e ciências humanas é o equivalente ao fosso de crocodilos que rodeia os castelos encantados: os habitantes de cada um dos lados temem-se e odeiam-se mutuamente, quem tentar estar no meio é comido vivo.

E infelizmente, assim não vamos a lado nenhum. Porque quem se mete na ciência e no ambiente, fá-lo pura e simplesmente pela satisfação pessoal que lhe dá conhecer os mistérios de como funciona o Universo e sentir-se muito importante por isso, razões que são do mais humano que há. E quem segue pelas humanidades fá-lo porque quer compreender a fundo o que é isto de ser humano* e depois gaba-se de saber ler os outros como se fossem um livro aberto . De ambos os lados tenho encontrado pessoas que acham que têm a chave para decifrar o sentido da vida e resolver todos os problemas da humanidade, e que os "outros" são uma cambada de cegos que acham que o mundo se resume com o que aprenderam nos livros**.

É difícil explicar, e é preciso paciência, empatia e uma grande capacidade de simplificação, é preciso inventar palavras e às vezes fazer um desenho, mas é fundamental que as duas partes se consigam entender.

É que a ciência não tem utilidade nenhuma que não seja a de tornar a vida mais fácil ao ser humano. Não é anti-natural nem é má, é simplesmente a maneira que temos de nos expressar enquanto espécie. Há castores que constroem diques, há algas que transformam atmosferas de planetas inteiros - o Homo sapiens sapiens criou a civilização. E convém que a ponha a trabalhar a seu favor, senão sujeita-se às mesmas leis naturais que todos os outros: extingue-se.

A meu ver, se não houver integração das ciências naturais com as humanas, andamos a gastar dinheiro e tempo para nada. É muito giro produzir ratos fluorescentes e milho transgénico que cresce 3 vezes mais rápido, mas podiam-se ter gasto os recursos dessa investigação a descobrir porque é há entraves políticos que fazem com que excedentes de produção não sejam canalizados para os países com solos pobres que nunca vão poder auto-sustentar-se. E ao contrário também vale: é super interessante saber como se desenrascam os descendentes dos exilados da Alemanha nazi, mas neste momento há exilados a precisar de ajuda urgente para se integrarem e sobreviverem, e não vão alimentar-se de teses de 400 páginas.

Cada vez que vejo esta guerra entre cátedras, lembro-me de uma entrevista que a Clara Pinto Correia deu já lá vai mais de uma década, no programa A Ferro e Fogo, em que com duas frases resolveu o conflito desta gente toda: "Sim sou católica e isso não interfere com o ser cientista. Cada vez que olho através das lentes de um microscópio vejo coisas tão fantásticas que para mim são a prova que Deus existe".

A ciência não é uma vaca sagrada. Quanto mais conheço a Biologia, que é a minha área, mais sei que é impossível fazer generalizações em ciências exactas. A ciência é uma ferramenta como qualquer outra, e só precisamos dela se for para nos fazer sentir melhor. Sem objectivo, torna-se tão inútil como um par de barbatanas num gato.



*Que já diz o meu paizinho viver até uma planta vive, mas saber viver não é para qualquer um.

** Era juntá-los todos num quarto e dar-lhes um taco de basebol, não era;)?...ler tudo>>

Consulta ao público atento

Acaba hoje o prazo para que qualquer cidadão português se possa manifestar por escrito em relação aos ensaios com plantas geneticamente modificadas nos conselhos de Ferreira do Alentejo e Monforte [link] . Estas plantas ainda não estão aprovadas para cultivo nem está provado que sejam seguras para o as outras plantas, para os animais que circulam no campo ou para o ser humano, mas em algum lugar tem que se fazer o teste. Porque não em Portugal?

A realização de uma consulta pública antes da realização destes testes está prevista na lei, mas a sua divulgação ampla não está. O Simplex tem direito a publicidade no intervalo da telenovela que dá em horário nobre, mas não ouvimos falar desta consulta pública. A Plataforma Transgénicos Fora emitiu um comunicado em que dava um parecer negativo aos ensaios apontando 4 razões de ãmbito legal bastante relevantes [link].

Como nunca deixei de votar ou de participar em processos de cidadania desde que tenho idade para isso, também enviei o meu parecer:

«Exmo. Sr. Director-Geral da Agência Portuguesa do Ambiente,

Venho por este meio exercer o meu direito de cidadã portuguesa a participar na consulta pública sobre os ensaios com milho geneticamente modificado tolerante a herbicida nos locais de Ferreira do Alentejo e Monforte. Como licenciada em Biologia no activo e Investigadora em análise de risco relativa à introdução de plantas não nativas, a minha opinião sobre estes ensaios é de que constituem uma exposição desnecessária da população, da flora e fauna portuguesas e do próprio solo a um perigo que não é sequer quantificável. Deixo-o com o meu parecer, devidamente fundamentado nas referências abaixo indicadas.

As plantas geneticamente modificadas tolerantes a herbicida contêm um gene que se expressa em todos os órgãos da planta e tal como as outras substãncias naturalmente produzidas por todos os vegetais, exuda as proteínas produzidas pela raíz. A presença destas novas proteínas no solo altera a composição da população de micróbios à volta da raiz e este efeito propaga-se em cascata até alguma distãncia da planta (Liu, 2005). Tenha também em conta que ao introduzirmos uma planta tolerante a herbicidas, no ano seguinte não conseguiremos retirar as plantas que nascerem de sementes caídas com o mesmo herbicida que usámos, porque elas lhe são resistentes. isto implica um acréscimo na quantidade de herbicida que se vai aplicar ao solo (Lutman, 2005). A libertação deliberada de plantas geneticamente modificadas veio, num curto espaço de tempo, expôr o ambiente agrícola a uma quantidade de proteínas tremendamente maior do que quando elas eram produzidas apenas por microorganismos, e é impossível prever em que sentido os ecossistemas se vão deslocar para compensar este desiquilíbrio. A verdade é que se as populações de microorganismos que produzem as proteínas transgénicas não eram extensas até agora, isso devia-se ao equilíbrio natural em que estavam inseridas, e ele está a ser quebrado (Hillbeck, 2001).

Por último, gostava de lhe lembrar que muitos, se não a totalidade dos auto-denomidados peritos na matéria que se têm chegado à frente para dar o seu parecer positivo à libertação deliberada de plantas geneticamente modificadas são pessoas que exercem biologia e molecular e genética e estão apenas familiarizadas com o comportamento destes organismos em ambientes confinados. O impacto que uma população destas pode ter quando libertada é um assunto sobre o qual se devem pronunciar profissionais das áreas da evolução e dinãmica de populações, da fitossociologia e da ecologia, porque são essas áreas em específico que se debruçam sobre a movimentação de genes e populações no ambiente.

Com os melhores cumprimentos,

Rita
Assistente de Investigação
(respectiva instituição)
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Referências:
Hilbeck, A. (2001). "Implications of Transgenic, Insecticidal Plants for Insect and Plant Biodiversity." Perspectives in Plant Ecology, Evolution and Systematics 4(1): 43-61.

Liu, B., Q. Zeng, F. Yan, H. Xu and C. Xu (2005). "Effects of Transgenic Plants on Soil Microorganisms." Plant & Soil 271(1/2): 1-13.

Lutman, P. J. W., K. Berry, R. W. Payne, E. Simpson, J. B. Sweet, G. T. Champion, M. J. May, P. Wightman, K. Walker and M. Lainsbury (2005). "Persistence of Seeds from Crops of Conventional and Herbicide Tolerant Oilseed Rape (Brassica Napus)." Proceedings of the Royal Society B 272: 1909–1915.»
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Estatística instantânea


Uma pessoa é confrontada com a realidade relativamente à divulgação científica e ao investimento em ciência no próprio país quando passa por uma coisa destas:

Professor de violino e músico profissional: Então, é bióloga?
Eu: Sim.
Professor de violino e músico profissional: Deve ser difícil arranjar trabalho na sua área...
(Porto, 26 de Fevereiro de 2008)
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